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- por Thiago Brayner
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Em um dos maiores acordos de conformidade da história corporativa global, J&F Investimentos e a JBS S.A. chegaram a um acordo financeiro massivo com as autoridades americanas. No dia 14 de outubro de 2020, o Departamento de Justiça (DOJ) e a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) anunciaram ações de fiscalização que resultaram em multas totais superiores a US$ 283 milhões. O caso expõe uma rede complexa de subornos praticada ao longo de anos para obter vantagens financeiras e facilitar aquisições estratégicas no mercado internacional.
A resolução foi anunciada na Corte Distrital dos EUA, localizada no Brooklyn, em Nova York. Os irmãos Joesley Batista e Wesley Batista, donos do J&F, confessaram conspiração para violar as disposições anticorrupção da Lei de Práticas Corruptas no Exterior (FCPA). A confissão marcou um ponto de virada não apenas para o conglomerado de carne, mas para a percepção global sobre os riscos de compliance em operações transnacionais.
O Acordo com o Departamento de Justiça
O braço criminal da investigação resultou em uma penalidade histórica. O J&F Investimentos concordou em pagar US$ 256,497,026 em penalidades criminais. Segundo Rabbitt, então Procuradora Adjunta Interina do DOJ, "com a confissão de hoje, o J&F admitiu envolver-se em um padrão de longo prazo de pagamento de subornos a funcionários corruptos no Brasil para obter financiamento e outros benefícios".
A investigação revelou que executivos de alto nível usaram bancos em Nova York e imóveis para canalizar milhões de dólares em subornos a agentes governamentais brasileiros. Não se tratava apenas de facilitação burocrática; era uma estrutura sistêmica de corrupção que envolvia a cúpula da empresa. A escala das operações levou o governo americano a buscar a máxima punição permitida pela lei para servir como exemplo dissuasor para outras multinacionais.
A Investigação da SEC e a Pilgrim's Pride
Paralelamente, a SEC impôs sanções civis. O J&F, os irmãos Batista e a JBS concordaram em pagar cerca de US$ 27 milhões para resolver as acusações. A JBS arcará com aproximadamente US$ 27 milhões em restituição, enquanto cada irmão Batista pagará uma multa civil de US$ 550 mil.
O cerne dessa parte da investigação foi a aquisição da Pilgrim's Pride Corporation em 2009. Após a compra, os Batistas, atuando como membros do conselho da empresa americana, direcionaram pagamentos de cerca de US$ 150 milhões em subornos. Esses fundos foram obtidos através de transferências intercompanhias, dividendos e contas operacionais da JBS que continham recursos da Pilgrim's Pride.
A SEC determinou que os Batistas exerciam controle significativo sobre a Pilgrim's Pride, compartilhando espaço de escritório, membros do conselho, sistemas contábeis SAP e controles internos com a JBS. Essa fusão operacional indevida levou à falha da Pilgrim's Pride em manter registros precisos e controles internos adequados, violando severamente as normas de transparência exigidas para empresas listadas nos EUA.
Contexto Brasileiro: Carne Fraca e Lava Jato
Antes das ações nos EUA, o grupo já enfrentava consequências devastadoras no Brasil. Em 31 de maio de 2017, a JBS assinou um acordo de leniência com o Ministério Público Federal (MPF) no âmbito da Operação Carne Fraca. O acordo previa o pagamento de R$ 10,3 bilhões (cerca de US$ 3,2 bilhões na época), tornando-o um dos maiores acordos de cooperação judicial da história mundial.
Esse cenário ocorreu sob o rastro da Operação Lava Jato e investigações correlatas como a Operação Greenfield e a Operação Cui Bono. Em agosto de 2017, a Pilgrim's Pride divulgou em seu formulário 10-Q que o J&F conduzia uma investigação interna sobre pagamentos impróprios feitos no Brasil. Apesar disso, nem as empresas revelaram abertamente que o DOJ e a SEC haviam aberto investigações até o anúncio final em 2020.
Impacto Político e Testemunhos Chave
A queda do J&F teve repercussões políticas profundas no Brasil. Joesley Batista tornou-se central na investigação contra o ex-presidente Michel Temer após gravar secretamente conversas nas quais Temer parecia incentivar o suborno de testemunhas. Outros executivos da JBS, em depoimentos colaboracionistas, acusaram Temer de receber quase US$ 5 milhões em propinas.
Os depoimentos atingiram virtualmente todas as figuras principais da política brasileira, incluindo alegações de que os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff receberam US$ 80 milhões em subornos em contas offshore. A CPI da JBS, criada em setembro de 2017, visava investigar empréstimos do BNDES concedidos entre 2007 e 2016, mas foi vista por muitos analistas como uma manobra política para proteger aliados do então presidente Temer.
Perguntas Frequentes
Qual é o valor total pago pelo J&F e JBS nos acordos com os EUA?
O valor total combinado ultrapassa US$ 283 milhões. Isso inclui US$ 256,497,026 em penalidades criminais pagas pelo J&F Investimentos ao Departamento de Justiça e cerca de US$ 27 milhões em sanções civis divididos entre J&F, JBS e os irmãos Batista junto à SEC.
O que é a Lei FCPA e por que ela se aplica a empresas brasileiras?
A Foreign Corrupt Practices Act (FCPA) proíbe empresas e indivíduos dos EUA de oferecer subornos a funcionários estrangeiros para obter negócios. Ela se aplica porque a JBS adquiriu a Pilgrim's Pride, uma empresa listada nos EUA, e utilizou o sistema financeiro norte-americano para processar parte dos pagamentos ilícitos.
Como a operação afetou a Pilgrim's Pride?
A Pilgrim's Pride sofreu danos reputacionais significativos e foi forçada a reformular seus controles internos. A SEC descobriu que a empresa compartilhava infraestrutura crítica com a JBS, permitindo que fundos fossem desviados para subornos sem a devida divulgação aos auditores ou reguladores americanos.
Existe relação entre este caso e a Operação Lava Jato?
Sim, há uma conexão indireta mas forte. Ambos os casos expuseram redes de corrupção sistêmicas envolvendo grandes corporações e políticos de alto escalão no Brasil. As investigações da JBS ocorreram paralelamente às da Lava Jato, contribuindo para um clima geral de escândalo político e econômico no país durante aquele período.
Quem são os responsáveis legais pelos crimes dentro do grupo?
Os irmãos Joesley e Wesley Batista foram identificados como os principais arquitetos do esquema. Eles confessaram conspiração e aceitaram responsabilidades civis e criminais individuais, além de responderem pelas ações corporativas do J&F Investimentos e da JBS S.A.
9 Comentários
Nicolas Andrade de Campos
que vergonha nacional!!! essa historia de suborno nao para nunca!! os batistas e cia sao criminosos declarados! ja pagaram bilhoes aqui e agora la nos EUA?? quem paga isso eh o contribuinte brasileiro no final das contas!!! so tem ladrão nesse pais infelizmente!!!!
Felipe Cabuto
Gostaria de elucidar que a aplicação da Lei FCPA demonstra a seriedade com que as jurisdições internacionais tratam a integridade corporativa. É fundamental compreendermos que mecanismos de compliance não são meras formalidades, mas sim pilares essenciais para a estabilidade do mercado global e a confiança dos investidores estrangeiros em nossas operações econômicas.
Henrique Silva
todo mundo sabe como funciona por aki. dinheiro sujo compra tudo. juiz, delegado, congressista. esses caras so foram pega porque erraram na conta ou porque precisavam desviar a culpa pra cima de outros. é o jogo normal da politica brasileira.
Rafael Souza
Mais um esquema falido.
Mônica Carvalho
Ufa! 😮 Que alívio ver que a justiça está agindo! 👏 Precisamos muito disso para melhorar nosso país! 🇧🇷 Vamos torcer para que esse exemplo sirva de alerta para todos os grandes grupos! 💪 A transparência é essencial para construirmos um futuro melhor juntos! ✨😊
Babi Cruz
Nao acredito que ninguem percebeu antes? claro que foi montado para proteger os de verdade. a pilgrims pride era apenas uma fachada para lavar o dinheiro sujo da JBS. os americanos sabiam de tudo e deixaram rolar ate estourar a bolha. classica operaçao de controle geopolitico contra empresas brasileiras que tentam competir internacionalmente sem pedir permissao ao establishment financeiro global.
Luiz Felipe Massad
kkk so mais um acordo de leniencia. eles pagam um pouco e continuam ricos. o sistema ta viciado. ninguem vai preso de fato. so fica no papel mesmo.
Raphael Goutmann
A complexidade desse caso revela uma narrativa muito mais profunda do que simples transações financeiras irregulares. Ao observarmos a interconexão entre as estruturas corporativas da JBS e a Pilgrim's Pride, percebemos como a falta de barreiras éticas permitiu que fluxos de capital fossem desviados sistematicamente, criando uma teia de dependência mútua que beneficiava a cúpula executiva em detrimento da governança corporativa responsável. Isso nos leva a refletir sobre quão frágeis podem ser os controles internos quando a cultura organizacional prioriza resultados imediatos acima de qualquer consideração legal ou moral, transformando empresas gigantes em instrumentos de corrupção estruturada.
Steffany Damasceno
É importante destacar que a violação das normas contábeis da SEC envolveu falhas graves nos controles internos compartilhados entre as entidades. A integração inadequada dos sistemas SAP e a ausência de segregação de funções permitiram que pagamentos ilícitos fossem disfarçados como despesas operacionais legítimas. Tal negligência técnica representa um risco significativo para a precisão das demonstrações financeiras e viola os princípios fundamentais de auditoria exigidos para empresas listadas nas bolsas americanas.
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