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- por Thiago Brayner
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Após uma das apurações mais longas e tensas da história recente do país, Keiko Fujimori, candidata presidencial do partido Fuerza Popular foi declarada a nova presidente do Peru. A vitória, confirmada apenas 22 dias após a segunda volta realizada em 7 de junho, veio com uma margem estatisticamente irrisória: 49.641 votos de diferença sobre um universo de cerca de 18 milhões de sufrágios válidos.
A notícia chegou em meio a um clima de profunda polarização. Enquanto os apoiadores de Keiko celebravam o fim de quatro tentativas frustradas (2011, 2016 e 2021), o adversário derrotado, o congressista de esquerda Roberto Sánchez, já anunciava contestação dos resultados, acusando irregularidades no processo eleitoral.
O fim da contagem interminável
Aqui está o detalhe que define esta eleição: a incerteza. Por três semanas, o país viveu sob a sombra da dúvida. A Oficina Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), autoridade responsável pela apuração, só conseguiu fechar o escrutínio ao 100% na última segunda-feira, 29 de junho. O atraso não foi burocrático comum; deveu-se à necessidade de revisar milhares de atas questionadas e resolver observações técnicas que surgiram durante a contagem manual em regiões remotas.
Os números finais, divulgados em Lima, foram precisos até a terceira casa decimal. Keiko Fujimori obteve 50,135% dos votos válidos (9.223.396 sufragios), enquanto Roberto Sánchez ficou com 49,865% (9.173.755 votos). É uma vitória técnica, mas historicamente significativa: é a terceira eleição presidencial consecutiva no Peru decidida por menos de 1% de diferença.
Quarta tentativa, primeiro mandato feminino
Para Keiko, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, esta é a redenção política. Aos 51 anos, ela se torna a primeira mulher eleita presidente do Peru. A jornada foi marcada por altos e baixos dramáticos. Em 2021, sua campanha enfrentiu acusações graves de fraude que levaram à anulação parcial de seus votos, embora ela tenha sido absolvida judicialmente posteriormente.
"Recebo estes resultados com grande responsabilidade", afirmou Keiko em comunicado oficial. "Estarei à frente de um país dividido". Suas palavras refletem a realidade sociopolítica atual: um Peru onde as linhas entre esquerda e direita são tão finas quanto a margem de vitória nas urnas. Ao seu lado, assumirão como vice-presidentes Luis Fernando Galarreta (primeiro vice) e Miguel Ángel Torres Morales (segundo vice).
Controvérsias e o desafio da legitimidade
Mas a festa tem ressalvas. Roberto Sánchez, líder do movimento Juntos pelo Peru, não reconheceu imediatamente a derrota. "Denunciamos fraude", declarou o candidato, apontando para supostas inconsistências nas atas eletrônicas e manuais de certas províncias andinas. Protestos isolados eclodiram em algumas cidades logo após a divulgação parcial dos dados, levantando preocupações sobre a estabilidade social nos primeiros meses do novo governo.
A Missão de Observação Eleitoral da União Europeia emitiu um parecer preliminar descrevendo a disputa como um "empate técnico" nos primeiros dias, mas elogiou a transparência geral do processo, apesar dos atrasos. Analistas políticos locais sugerem que a rejeição de Sánchez pode ser uma estratégia tática para manter a mobilização de base, ou um reflexo genuíno da desconfiança crônica nas instituições peruanas.
Próximos passos: Posse e Proclamação
O processo ainda não terminou. Embora a ONPE tenha fechado a conta, a proclamação oficial ocorre quando o Jurado Nacional de Eleições (JNE) entrega as credenciais à vencedora. Este ato cerimonial estava agendado para sexta-feira, 3 de julho. Após isso, Keiko Fujimori prestará juramento como presidente em 28 de julho de 2026, iniciando um mandato de cinco anos que promete ser turbulento.
O contexto macroeconômico também pesa. O Peru enfrenta desafios inflacionários globais e tensões sociais relacionadas aos direitos indígenas e ambientais. Keiko terá que equilibrar sua agenda conservadora e de mercado aberto com a necessidade de pacificar setores marginalizados que votaram massivamente em Sánchez. A margem estreita significa que qualquer erro político pode ser fatal rapidamente.
Contexto Histórico: Um País Polarizado
Esta eleição não existe no vácuo. Ela segue uma década de instabilidade política no Peru, marcada por seis presidentes diferentes desde 2016, muitos deles removidos por impeachment ou prisão. A sociedade peruana está cansada da volatilidade. A vitória de Keiko, embora controversa, oferece uma certa continuidade ideológica para setores empresariais e urbanos, mas ignora completamente as demandas rurais e sindicais que impulsionaram a votação de Sánchez.
Especialistas alertam que governar com 50,1% do apoio exige coalizões frágeis. O Congresso peruano, tradicionalmente hostil aos executivos, agora terá que negociar cada passo da administração Fujimori. Se ela não conseguir ampliar sua base além do núcleo duro do Fuerza Popular, seu mandato pode seguir o padrão histórico de interrupções prematuras.
Perguntas Frequentes
Qual foi a margem exata de vitória de Keiko Fujimori?
Keiko Fujimori venceu por uma diferença extremamente estreita de 49.641 votos. Ela obteve 50,135% dos votos válidos (9.223.396 votos), enquanto seu oponente, Roberto Sánchez, recebeu 49,865% (9.173.755 votos). Esta é a menor margem percentual em décadas na história eleitoral peruana.
Por que a apuração demorou 22 dias?
O atraso ocorreu devido à complexidade logística de contar manualmente atas em áreas remotas e à necessidade de resolver disputas legais sobre documentos eleitorais questionados. A ONPE teve que validar milhares de atas antes de poder declarar o resultado final ao 100%, garantindo a integridade do processo contra alegações de fraude.
Quando Keiko Fujimori assume o cargo?
A posse oficial está marcada para 28 de julho de 2026. Antes disso, o Jurado Nacional de Eleições (JNE) realizará a cerimônia de proclamação e entrega de credenciais, prevista para 3 de julho, formalizando legalmente sua vitória perante a Constituição peruana.
Roberto Sánchez aceitou a derrota?
Não imediatamente. Roberto Sánchez denunciou possíveis fraudes e contestou a legitimidade do resultado, citando irregularidades nas atas. Sua recusa inicial em reconhecer a vitória aumentou a tensão política e levou a pequenos protestos, criando um cenário desafiador para a transição de poder.
Quem são os vice-presidentes eleitos?
Os companheiros de chapa de Keiko Fujimori são Luis Fernando Galarreta, que será o primeiro vice-presidente, e Miguel Ángel Torres Morales, nomeado segundo vice-presidente. Ambos farão parte da equipe executiva durante o mandato de cinco anos que começa em julho de 2026.